Quando termina um livro?
- Jessica Marzo
- há 2 dias
- 2 min de leitura
Para que se expor tanto?
Tati, a personagem do livro é questionada quando apresenta o manuscrito para algumas pessoas antes de publicá-lo.
Faz um mês que terminei a leitura do livro de Tatiana Salem. Terminei?
“Quando termina uma separação?
Quanto termina um luto?
Quanto termina um assédio?
Quando termina um aborto?
Quando termina um amor?
Quando termina um livro?”
Os questionamentos da personagem/autora não me deixam terminar o livro. Tem amores, traumas, filmes, cheiros, separações que nunca terminam, atravessam a pele, osso, carne, sangue e fazem morada em nosso corpo. A Tati escreve numa tentativa de tentar se libertar daquilo que não termina, que está grudado em si.
“Sempre me pergunto se uma cena, ao ser materializada em escrita, levada para fora, também contínua do lado de dentro, como se apenas tivesse sido duplicada, ou se pelo contrário, se desdobra e se distancia da origem.”
Tatiana (a autora) conta na voz de Tati (a personagem) seus traumas e expõe cartas, trechos de diários, exame médico e o seu processo de escrita. Escrevo ou não sobre isso? Cito ou não Fulano?
Uma escrita sendo construída enquanto se escreve, como se encontrássemos quase que um material bruto. É um livro sobre um assédio, luto, relação de mãe e filha, mas principalmente sobre uma mulher que escreve.
O que acontece com a coisa, depois que ela assume a forma de palavras no papel?
“Talvez a única forma de parar de sentir o que ela sente seja escrevendo o que ela sente. Haverá outra possibilidade de fazer com que a cena deixe de me perseguir?” Mas ela deixará de me perseguir?
Durante a leitura do livro, eu grifei várias partes e escrevi “a escrita cura?”. Eu sempre escrevi, no sentido de investigar o que acontece em mim, no outro e no mundo. Quando fechei o livro, depois de ler o último ponto final, fiquei com vontade de ligar para a Tati e perguntar: E aí, o que aconteceu depois que você colocou esse último ponto final? A escrita cura? O que é a cura?
Como infelizmente não sou amiga de Tati, não deu pra ligar, mas fui ouvir entrevistas sobre a obra. E no podcast Clube do Livro da rádio Eldorado, Roberta Martinelli perguntou (obrigaaada) e ela respondeu.
Resumidamente foi isso: “A arte é sempre ficção. A escrita não cura, as vezes ela até intensifica as emoções. Mas o que é a cura? Talvez a gente tenha na cabeça que se curar, seja não pensar mais no assunto. A cura é possível, na medida que você consegue conviver com essa dor. Não existe cura para a vida "




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