Esperar.... esperar... esperança
- Jessica Marzo
- há 2 dias
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Aos quatorze anos, usei aparelho nos dentes. Todo mês, durante quase dois anos, voltava ao consultório para manutenção. Ficava perto de casa, então eu ia sozinha. A recepcionista de voz fina me anunciava, eu subia as escadas e aguardava. Raramente encontrava alguém na sala de espera. Maria Helena, a dentista, nunca cumpria o horário marcado. Demorava uma hora para me chamar. Escutava a recepcionista atender telefonemas e folheava revistas Caras. Ainda lembro das cadeiras de metal com estofado azul, o lustre oval, e a o quadro de dois cavalos na parede.
Na faculdade, senti falta do cigarro que nunca fumei. Queria ter companhia enquanto esperava por 1h ou 2h minha carona de volta para a casa. Na época já havia celular, mas o meu só fazia ligações, e o custo era alto. Sozinha, sentada no murinho, eu acompanhava o povo entrar, sair, comprar pastel e negociar valor de pulseirinhas com hippies. Como havia movimento, diferente da sala da dentista, a espera não parecia tão perdida.
Bom, tudo isso já tem mais de vinte anos. Antes do smathphone se popularizar, antes do wi-fi, redes sociais, e dos nossos dedinhos estarem viciados a digitar os números da senha de desbloqueio a cada 10 segundos. Esperar significava esperar mesmo. Quando estamos entediados, o tempo se dilata. E, sobra de tempo, é o fetiche da modernidade.
Hoje, quando chego na estação para esperar o trem, olho em volta, todas as cabecinhas inclinadas para baixo, “text neck”, é o nome dessa síndrome-postura. Os corpos estão ali em encontro uns dos outros, mas os olhos correm ligeiros em vidas alheias, trabalho e memes, totalmente ausente do lugar físico que o corpo ocupa.
Outro dia enquanto esperava o horário do cinema, entrei numa livraria, e sem querer encontrei o livro “Odeio Esperar”. Fui chamada pelo título, que amei, e pelas ilustrações que tem uma pegada caótica-divertida. Ali mesmo li o livro inteiro. Uma menina imagina sempre duas cenas diferentes (uma mais comum, outra mais louca) enquanto espera o ônibus, a comida num restaurante, ou na fila do supermercado.
O livro me levou para as memórias de espera, como mudou antes e depois do celular. Esperar era uma condição que te obrigava a não fazer nada, a olhar ao redor, a perceber a pintura descascada da parede enquanto elevador não chega. Um tempo perdido, definiria os neoliberais ávidos por produtividade.
Segundo o dicionário a palavra esperar vem do latin sperare, que significa ter esperança. Quando estamos no laboratório, aguardando o resultado de um exame exercitamos uma forma antiga de fé. Esperar é manter aberto um espaço dentro de si para o que ainda não aconteceu. Olha só que curioso, estamos entregando nosso tempo “perdido” de espera/esperança aos anúncios, ao trabalho a Marck Zuckemberg, e o pior, a troco de memes.




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