Dia das mulheres
- Jessica Marzo
- há 5 dias
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7 de março, 22h07. Sentada na cama, abro o livro. Faltam trinta páginas para finalizar.
O cheiro da sopa no fogão, o barulho do abre e fecha do portão enferrujado, o suor escorrendo na testa de uma mulher de cabelos grisalhos.
O retorno da mãe e bisa. O reflexo na bacia de alumínio. As linhas na mão com cheiro de cravo. O dinheiro colocado debaixo do liquidificador por um senhor que está sempre ali, para ajudar. As caronas até a escola. O dever de casa. O circo da cidade.
A delicadeza do cotidiano de vidas que percorri em cada detalhe e ausência.
O nó na garganta ao chegar na página 231. Não, não é o que tô pensando, não pode ser. Fecho o livro com o dedo marcando a página. Sinto o sangue tremer. Queria desver. Escolho seguir a leitura. O olho acelerado, buscando respostas nas palavras-poemas de Aline Bei. Volto na folha 231, preciso confirmar se é isso mesmo. Busco no dicionário os significados de “grelinho”.
Respiro fundo, penso na minha filha de dez anos que dorme fora de casa. Sinto medo de ter duas meninas.
Finalizo o livro. Ouço o barulho da TV no quarto ao lado, grito para minha caçula desligar o aparelho, já é tarde. Apago a luminária e, descanso a cabeça no travesseiro. Fecho os olhos. Minha pequena se deita aninhada ao meu corpo. Abraço-a forte, o cheiro do cabelo úmido invade minhas narinas. Digo que ela pode dormir comigo esta noite.
- Por que, mãe?
- Amanhã é dia das mulheres, e quero estar pertinho, caso algum pesadelo invada seu sonho




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