De Portugal sinto o cheiro do BRasil
- Jessica Marzo
- há 5 dias
- 2 min de leitura
No inverno europeu, dentro do apartamento de piso de madeira e vista-mar, consigo sentir a terra seca entrar pelas minhas narinas, uma poeira quente se mistura ao suor de dois homens que carregam pedras e fritam os miolos debaixo do sol escaldante. Sinto o cheiro do Brasil sertanejo, mesmo que meus pés jamais tenham pisado lá.
No último dia do ano, com um toque no botão, desligo o livro, o que me causa uma sensação de falta, pois este, em especial, gostaria de tê-lo fechado, folheado, e passado rapidamente de trás para frente. A obra pesa 0,19kg e recomendo que seja lida no papel, eu desavisada não o fiz, e por isso começo o ano arrependida. O autor, Marcelino Freire não se limita ao texto, aproveita poeticamente as possibilidades do objeto livro para narrar o silêncio.
As vezes desvio os olhos das letras e fito as paredes a minha volta nem tão brancas, com marcas de dedos miúdos mal lambidos de chocolate. Estruturas rígidas, levantadas há meio século (ou mais) por homens de dedos calejados de silêncios, que há pouco resistiram há um pequeno tremor de magnitude 5,3. Quanto a terra precisa tremer, para que essas paredes que me observam, desmoronem?
Um pai, um filho. Um fiscal de obras. Pedras, peso, cimento. Uma biblioteca, livros, imagens, não se diz, mas vi Paulo Freire na obra. Uma mãe. Um professor, uma menina-mulher e a avó. A energia eólica, o calor seco. Tudo contado e cantado, em que uma palavra vai “escalavrando”, ralando na outra até deixar em carne viva.
“ (...) quando conseguirá dizer que ele tem pouca palavra, que não é ninguém? _nas estantes, na sala, sobre as estantes da sala o silêncio dos livros, então era ele um livro fechado também (...)”




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