A linguagem dos sonhos
- Jessica Marzo
- há 5 dias
- 2 min de leitura
Estou beijando-o. Partes da língua dele começam a se desmanchar na minha boca, mas o beijo continua bom. Eu vou ao espelho e vejo pedacinhos de sua língua, entre meus dentes, tento tirá-las, mas não consigo.
“Se os teus sonhos fizeram algum sentido depois que despertaste é porque talvez ainda não tenhas despertado”
O universo onírico me interessa. O sonho é uma linguagem que se foi desaprendendo com o avanço da racionalidade técnica. Os sonhos eram vistos como mensagens dos deuses, do inconsciente, do espírito, eles tinham um significado a ser decifrado, era um código que se podia e devia tentar aprender a interpretar.
Quando se colocou a razão consciente como a única fonte confiável de conhecimento, tudo o que não era mensurável e lógico ficou no campo do menos importante. O foco se voltou para a ciência, a técnica, a eficiência e o mundo material.
“Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver, mas sem a grande mentira que é a vida”
Ao me sentar no divã pela primeira vez passei a anotar e interpretar meus sonhos, o que me trouxe não apenas uma consciência expandida de quem sou, mas também a pura diversão de decifrar as imagens que a minha mente cria.
A sociedade dos sonhadores involuntários é um livro deliciosíssimo de ler. Tem a situação política de Angola pós-guerra como pano de fundo, os dilemas emocionais dos personagens, e a narrativa dos sonhos onde cabe tudo o que não faz sentido, mas faz. ( até porque tem situação que vivemos acordados -principalmente no campo político- desprovidas de sentido)
“Sonhar é ensaiar a realidade no conforto de sua cama”
Eu acho que se deveria ensinar a linguagem dos sonhos nas escolas. Minhas filhas têm um caderninho, em que anotam os sonhos. Lembrar dos sonhos é um exercício, quanto mais se faz, mais se lembra e mais se aprimora.
A gente aprende logo cedo a tabuada, geometria, fórmulas de física, regras gramaticais, sistema respiratório, mas nunca ninguém ensina a interpretar um sonho.
“Todos os sonhos são assustadores, porque são íntimos. São o que temos de mais íntimo. A intimidade é assustadora”




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