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A desmarginação de Clarice

  • Jessica Marzo
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Clarice não é de ser devorada; ela te engole antes. É preciso pausas profundas. Não amei o livro. Tampouco consigo dizer que desgostei. A dor se mistura a profunda alegria, e a alegria chega a ser dolorosa. É assim a leitura do começo ao fim.


A personagem narra seu processo de desorganização e expansão ao questionar seu papel, seu lugar no mundo, a forma como se apresenta. Somos convidadas a mergulhar em pensamentos sem filtros, ideias confusas, contraditórias, bem elaboradas, profundas, densas, filosóficas, diálogos consigo, com o outro e lembranças do passado.


“Olhava de relance o rosto fotografado e, por um segundo, naquele rosto inexpressivo o mundo me olhava de volta também inexpressivo. (...). Só meus retratos fotografavam um abismo? Um abismo.”


Clarice morreu antes da década 1980, ela não conheceu o Instagram. O que ela escreveria sobre seu perfil, suas fotos, os filtros, os cortes nas redes sociais? Que forma é essa que criamos de nós, e que apresentamos aos outros? Que invenção é essa que nos ocupa por completo?


“Quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim. De algum modo, como se não fosse eu, era mais amplo do que se fosse – uma vida inexistente me possuía toda e me ocupava como uma invenção. (...). Como eu não sabia o que era, então não ser, era a minha maior aproximação da verdade. “


Em meio a tantas reflexões e descobertas a personagem se dissolve. Seu corpo perde forma. Ao ver o que ela viu, ao atingir um certo nível de pensamento, tudo o que era antes, passa a não ser. E então a forma se desfaz. Quem somos sem a bordas que delimitamos para nós mesmos?


“É difícil perde-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira que vivo.”


O mais cômodo é correr para o que já está elaborado sobre nós mesmo, o que já está organizado, domesticado, aquilo que já é conhecido. Mas e se essa forma, que assumimos até hoje é limitada ao que se espera de nós?


A mim, a personagem G.H foi dando uma alegria difícil, mas chama-se alegria.



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jemarzo@hotmail.com

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