A ausência da festa junina
- Jessica Marzo
- há 5 dias
- 2 min de leitura
“Olha pro céu meu amor, veja como ele tá lindo, olho para aquele balão multicor, como no céu vai sumindo”
Desligo Luiz Gonzaga e vou buscar as crianças na escola. O sol está de derreter os miolos. As ruas cobertas por árvores floridas. Caminho suando por cima das flores lilás de jacarandá que cobrem com delicadeza o asfalto quente. É junho. Recebo um convite da escola, para comemorar o fim do ano letivo com jogos de água. Ainda não me acostumei com a inversão de estação.
Abro as redes sociais e vejo um vídeo da Milly Lacombe de cachecol. Lá ta frio. Curto as fotos das crianças vestidas de caipira. Sinto saudade até daquilo que era 100% função: caminhar com duas crianças na fria SP, agarrar firme em suas mãos pra passar apertado entre os camelôs, desviar das pessoas no ponto de ônibus, e se perder na loja Torra Torra abarrotada de uma infinidade de cores e estampas juninas.
Quando eu era pequena, adorava fazer trancinhas no cabelo e pintinhas no rosto. Anos depois, diante das minhas filhas dançando sob as bandeirinhas de São João, meus olhos encheram de emoção. Como um gesto antigo se renova, se entranha no corpo e floresce. Na dança inocente delas, eu reconheço o que um dia também me habitou.
Enquanto estiver longe do Brasil essa falta há de me preocupar, não só pela ausência em mim, mas por elas. É nessas horas, em que as fogueiras de São João não iluminarão seus pés brincantes, que me pergunto: que identidade brotará em minhas filhas, feita não de lembranças, mas de um Brasil distante? Serão brasileiras de um país imaginado, um lugar que lhes chega em retalhos a partir dos meus relatos?
Ainda não sei lidar com a ideia de que elas não viverão a cultura brasileira como eu vivi. Os símbolos que em mim são afeto, identidade e memória, nelas talvez nunca deixem marcas. E nesse abismo entre o que fui e o que elas serão, me descubro estrangeira de um futuro que não sei decifrar. Que identidade é essa, que elas existirão, e que pode não me dizer nada?
Enquanto penduro peixes na camiseta branca pra apresentação de final de ano da escola, escuto minha filha mais nova cantarolar o refrão de uma música portuguesa indecifrável para mim.




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